PLANEJAMENTO DA PESQUISA CLÍNICA
José Gerson Gerstler


INTRODUÇÃO E DEFINIÇÕES

O ensaio clínico é um modelo de pesquisa científica onde o pesquisador especifica o grupo que vai ser estudado, seleciona o tratamento ou as intervenções a que este grupo será submetido e observa o resultados. Este modelo descrito se assemelha muito ao modelo experimental que se compõe de um grupo de tratamento, também denominado de grupo experimental ou de estudo, sendo comparado a um outro grupo que será submetido às mesmas condições que o primeiro exceto nos tópicos alvos da pesquisa; este segundo grupo é chamado de grupo controle. A pesquisa clínica utiliza-se de modelo amostral, que significa retirar uma amostra de uma população alvo do estudo, observar e testar variáveis nesta amostra e interferir o mesmo comportamento para a população origem.
A principal etapa na realização de uma pesquisa clínica é o seu planejamento. Fazendo uma analogia, o que aconteceria se um avião decolasse sem traçar seu plano de vôo ou sem considerar os fatores climáticos externos à aeronave? Provavelmente não conseguiria completar o trajeto ou chegaria a um ponto muito distante do pretendido.

Na pesquisa clínica a falta de planejamento pode levar a impossibilidade de conclusão do estudo ou a resultados muito distantes da realidade. Este desvio da realidade é chamado tecnicamente de vício ou tendenciosidade e pode ocorrer a qualquer momento no decorrer do estudo. O planejamento deverá traçar objetivos e evitar o vício através de métodos que serão vistos abaixo.

Quando ocorre um vício no planejamento da pesquisa é imposível detectá-lo através da análise estatística; esta tem a função de detectar a probabilidade de ter ocorrido o acaso nas diferenças que ocorrem durante a observação.

Este planejamento é descrito em um documento chamado protocolo. Este documento é escrito em linguagem clara e detalhada e será o guia da realização da pesquisa incluindo o objetivo, a metodologia e a ética do estudo. Neste documento deverão constar todas as informações e explicações para a realização do estudo assim como as regras de inclusão, exclusão, interrupção da pesquisa e padrões clínicos e laboratoriais aceitos para o estudo em questão.
O protocolo de pesquisa deverá ser utilizado somente para leitura, e as anotações e o registro dos dados obtidos da observação clínica deverão ser feitos de forma dirigida e específica para o estudo em andamento em uma ficha chamada de ficha de observação clínica; esta ficha será utilizada para o levantamento dos dados.

Portanto, é imperativo que o protocolo seja escrito antes de iniciar a pesquisa, devendo conter todas as regras e os passos de forma detalhada. As observações clínicas e os dados laboratoriais serão anotados em uma ficha separada específica para este fim.

FASES DO PLANEJAMENTO DA PESQUISA CLÍNICA
I Definir claramente o objetivo
II Planejar a coleta dos dados (amostragem)
III Escolher o esquema para evitar o vício (desenho metodológico)
IV Calcular o tempo e custo da pesquisa
V Planejar alocação de recursos, equipamentos e serviços de terceiros
Definir claramente o objetivo do estudo
Devemos ter em mente que é impossível atingir a verdade universal e explicar todos os fenômenos envolvidos em um único estudo. Um estudo tem o objetivo de contribuir de forma honesta e cientificamente válida, com o mínimo de desvio possível da realidade, para responder às indagações do conhecimento humano.

Devemos ter consciência de que, ao iniciarmos em estudo, estaremos ligados ao nosso conhecimento prévio. Hoje falar a um estudante de medicina que o centro das emoções está no coração é piada, mas já foi verdade incontestável por séculos.

Portanto, devemos ter em mente que o conhecimento avança em degraus e estamos fortemente ligados ao conhecimento acumulado e aos recursos tecnológicos atuais.
Um estudo clínico deverá ter um único objetivo e as questões formuladas deverão estar diretamente relacionadas com este objetivo.

Planejar a coleta dos dados (amostragem)
A extrapolação dos resultados obtidos em ensaios clínicos depende das características dos pacientes do estudo, sendo esta situação, por si, uma restrição à abrangência da conclusão do estudo.

As razões para que pacientes sejam estudados ou não dependam dos critérios estabelecidos previamente pelo pesquisador são descritas no ítem inclusão e exclusão do protocolo. Estes critérios visam a manter a homogeneidade dos critérios que serão controlados durante o estudo, tanto no grupo estudo quanto no grupo controle.

Quanto maior o rigor nestes critérios menor será o vício, porém o preço que se paga é a menor capacidade de generalização dos resultados obtidos. Devemos ter em mente que este método de seleção dos pacientes é uma forma de viciar a amostra; por isso é inaceitável trabalho com metodologia amostral tecer conclusões generalizadas a todos os centros de atendimento médico.

Outra causa de vício inerente à metodologia é quando o paciente, por sentir uma atenção especial, pode alterar seu comportamento, sua opinião sobre eficácia ou até mesmo o curso das doenças de cunho psicossomático (efeito Hawthorne). Formas para minimizar os desvios serão apresentadas no próximo tópico.

Na maioria dos estudos clínicos, o número de pacientes estudados é pequeno e a amostragem pode ser delineada conforme algumas características descritas abaixo:
Estudos com relato de casos - são estudos com descrição de doenças pouco comuns de forma detalhada. Estes estudos são de vital importância para delinear novas linhas de pesquisa e de auxílio para a prática clínica, na solução de problemas difíceis e incomuns.
Estudos de caso-controle - estes estudos, de maior complexidade, tendem a definir causa-efeito através do controle de variáveis que influenciam a manifestação estudada. Os casos são retirados, pelo investigador, da população que freqüenta o serviço médico e não se tem a definição exata da população geral e o grupo controle é escolhido pelo investigador com semelhanças ao grupo estudo.
Estudo de incidência - em geral se inicia com a definição da população que será estudada e se registra a ocorrência de casos novos. Não ocorre seleção ativa por parte do investigador e o grupo controle são as pessoas, desta mesma população, que no período de estudo não apresentarem ocorrência do evento estudado.

Os modelos acima são os mais utilizados nos serviços médicos para pesquisa clínica. Existem muitos outros modelos, principalmente no âmbito da pesquisa epidemiológica, que não é o escopo da discussão presente.

Definido o modelo amostral, o profissional da área de estatística deverá ser convocado para definir a coleta dos dados propriamente dita, para planejar a análise que será realizada e dimensionar o tamanho da amostra suficiente para se detectar alguma diferença, se ela existir.

Escolher o esquema para evitar o vício (desenho metodológico)
Inicialmente faremos uma breve consideração sobre os tipos mais comuns de vícios inerentes à própria metodologia da pesquisa clínica, no modelo experimental. São três os principais:
Vícios de amostragem - ocorrem quando grupos diferentes quanto a fatores que influenciam a análise clínica são comparados, como, por exemplo, avaliar a influência do tabagismo nos adolescentes quando, no grupo estudo, 80% são masculinos e no grupo controle, 80% são do sexo feminino.
Vícios de confusão - confusão que se pode fazer entre causa e conseqüência de um fator; por exemplo, detectou-se aumento de infarto do miocárdio com o uso de um medicamento; no entanto notou-se que todos que utilizaram este medicamento desenvolveram hipertensão, que sabidamente aumenta o risco de infarto. Evitando este vício, a conclusão é que a droga leva a hipertensão e não diretamente ao infarto.
Vícios de aferição - quando se utilizam métodos de mensuração distintos entre os pacientes ou grupos de pacientes com métodos laboratoriais diferentes, equipamentos diferentes etc..
Os métodos utilizados para minimizar os vícios são vários, sendo o mais utilizado a aleatorização (ou randomização). Outros métodos, como o pareamento, a estratificação e o ajustamento serão explicados a seguir.

Para minimizar os vícios de amostragem recomendam-se os métodos:
Aleatorização - é a única forma de igualar os fatores que influenciam o aspecto estudado e visa a dar chances iguais de um paciente pertencer ao grupo estudo ou ao controle. Este método geralmente é planejado junto com o profissional de estatística que orienta este processo, pois se trata de um método matemático.
Pareamento - à medida que entra um paciente no grupo estudo, um ou mais pacientes com as mesmas características que o paciente em estudo são procurados para pertencerem ao grupo controle.
Estratificação - é um dos métodos mais utilizados e o erro que se comete é o tamanho da amostra que precisa ser bem maior. Neste método, faz-se a coleta de dados e, ao final, subdivide-se a amostra em grupos com características semelhantes.
Ajustamento - é um processo matemático que ajusta um grande número de fatores controlados ou não. Está em moda nos estudos de causa-efeito, podendo-se dar pesos às variáveis estudadas ou utilizar uma fórmula matemática preditiva.

Para diminuir o risco de aferição o método de cegamento é o mais indicado. O estudo poderá ser simples-cego, quando o paciente não sabe a que grupo pertence, ou duplo cego, quando o paciente e o médico desconhecem a que grupo o paciente pertence.

Calcular o tempo e custo da pesquisa.
Muitas vezes a procura de respostas para questões leva a iniciar pesquisas que não terminam. Com a experiência, em cada serviço médico, o tempo poderá ser aproximadamente estimado, mas uma regra simples é fazer um levantamento retrospectivo no arquivo do hospital de quantos casos seriam incluídos por mês caso o protocolo tivesse começado um ano antes. Em regra, em um planejamento bem feito, tem-se uma perda de 10 a 20% dos casos devido a fatores não previsíveis. Então fazemos a seguinte conta para estimar o tempo necessário:
(No CASOS PREVISTOS NO ESTUDO + 20% / No CASOS ATENDIDOS POR MÊS NO SERVIÇO) = TEMPO ESTIMADO DO ESTUDO (MESES)

Se o estudo depender de financiamento, os custos com material de consumo, exames complementares, contratação ou remuneração de pessoal deverão ser previstos.

Em todas as fases, os fatores de custo monetário e tempo de deslocamento da equipe do atendimento assistencial deverão ser cruzados com o benefício da pesquisa clínica voltada para os próprios pacientes.

Planejar alocação de equipamentos e serviços de terceiros
Um estudo clínico muitas vezes não se concretiza por falta de envolvimento com a instituição, devido à falta de disponibilização de equipamentos, devido à mudança de análises clínicas que vinham sendo utilizadas, devido à falta de tempo disponível da equipe paramédica, devido ao não envolvimento da equipe médica, devido à falta de disponibilidade do setor de estatística etc.. Estes fatores deverão ser considerados, negociados e compromissados antes da realização do estudo.

BIBLIOGRAFIA
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